“Primeiro ano da Era Showa (1926). Shigeru Mizuki, na época com quatro anos, admirava-se com tudo o que via e ouvia na sua terra natal, a província de Tottori. Para ele, que não fazia ideia de que a conturbada Era Showa estava prestes a começar, foi a época mais feliz da sua vida.” Assim começa Showa-Uma História do Japão, monumental obra do autor de mangá Shigeru Mizuki, da qual a Devir já publicou em Portugal dois dos quatro volumes. Como percebeu pelo título, mesmo que só agora esteja a conhecer Mizuki (de nascimento, Mura), trata-se de uma História do Japão contada por alguém que a viveu intensamente, ao ponto de ter sido soldado na Segunda Guerra Mundial.
A Era Showa, que corresponde ao reinado do imperador Hirohito, durou mais de seis décadas, e abrangeu o período de ascensão do militarismo, a Segunda Guerra Mundial, as bombas atómicas e a ocupação americana, o regresso à democracia e o desenvolvimento económico espectacular conhecido como milagre japonês. Mizuki tinha quatro anos quando Hirohito subiu ao trono, em 1926, e mais de 60 quando o imperador morreu, em 1989. Estes dois volumes disponíveis abrangem 1926-1939 e 1939-1944. O preto e branco domina, mas há cor em algumas páginas. E se o traço por vezes é de caricatura, há imagens quase fotográficas. O leitor que esteja a descobrir Mizuki ficará surpreendido, mas sobretudo render-se-á à grande qualidade da narrativa.
A Devir tem publicado regularmente Mizuki, incluindo uma outra obra de grande peso histórico, a biografia de Hitler. Perguntei a Ana Lopes, como editora (mas igualmente como leitora), o que lhe diz este mangá sobre a história do país de Mizuki no século XX. “Showa é uma forma pessoal, um pouco melancólica, triste e por vezes divertida de contar a história de um período complicado do Japão. Não aborda as questões com muita profundidade: a ocupação da Manchúria, a participação na guerra, o fecho ao exterior; mas o autor vai relatando os factos e ficamos a conhecer muito do que aconteceu, despertando o nosso interesse sobre os eventos. O que Mizuki apresenta, a sua visão pessoal – o impacto que todos os acontecimentos tiveram na sua família e na sua vida – é uma visão desdramatizada, divertida, um pouco ridícula por vezes, ao mesmo tempo que constrói um relato que não é moralista ou condescendente sobre os factos históricos. Para mim é muito interessante a forma como o faz, reforçando com um desenho muito realista situações mais dramáticas, utilizando uma figura com traços caricaturais para o narrador da história e para as pessoas que representam os seus pais, irmão, etc.. Para mim estes são os grandes atrativos do livro, a mestria de contar uma história sem redundâncias, sem amargura ou hipocrisia, aliados a um desenho espetacular”, foi a resposta.

Mizuki (adotou o nome de uma pensão onde viveu após regressar da guerra) celebrizou-se com a personagem Kitaro e não por acaso o obituário que dele publicou o Jornal de Nova Iorque em 2015 (morreu a 30 de novembro, com 93 anos) é ilustrado com uma fotografia onde o autor, meses antes, posava junto com um boneco de tamanho humano a representar o rapaz de um olho. O jornal, que no título do artigo, descreve Mizuki como “um influente cartoonista japonês”, sublinha que “era admirado por gerações de animadores japoneses e ganhou fãs no estrangeiro através do seu estilo, que combinava o amor ao grotesco com a simpatia e o humor descontraído”.
Depois de 200 anos fechado aos estrangeiros – uma reação extrema dos xóguns da família Tokugawa contra a força do catolicismo levado pelos portugueses nos séculos XVI e XVII-, o Japão abriu-se de novo em meados do século XIX. A chamada Revolução Meiji, do nome de reinado do avô de Hirohito, devolveu o protagonismo ao imperador, que afastou os xóguns, transferiu a capital de Quioto para Edo (rebatizada de Tóquio) e modernizou o país. Vitórias militares sobre a China e a Rússia mostraram o novo poder do Japão, mas a sociedade também evoluiu, com a democracia a afirmar-se, sobretudo no reinado seguinte, a Era Taisho. Contudo, a crise económica trouxe a ascensão do militarismo na década de 1930, com o Japão a expandir-se na Ásia Oriental, primeiro à custa da China. Depois, o Japão decidiu aliar-se aos nazis e desafiar os impérios coloniais europeus, nomeadamente o britânico, o francês e o holandês, que dominavam vastos territórios. Mesmo Timor, então colónia portuguesa, foi invadido pelo exército japonês, apesar de Portugal ser neutral.
O ataque surpresa a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941, que Mizuki retrata com mestria no segundo volume de Showa significou o apogeu do Japão como potência, mas também o início do seu declínio. Como Mizuki, que além de desenhador era historiador, vai explicando, o Japão não tinha possibilidade de competir com os Estados Unidos a médio prazo. Os navios afundados de um lado e do outro, nomeadamente porta-aviões, e os muitos aviões abatidos, eram muito mais depressa repostos pela capacidade industrial americana. Em finais de 1942, a Batalha de Guadalcanal, mostrou que a bravura japonesa, e o sentido de honra incentivado ao extremo pelos comandantes, não bastava para derrotar os americanos.
Os dois volumes seguintes de Showa vão mostrar a derrota japonesa em 1945, depois do lançamento das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasaki, e a ocupação americana do arquipélago nipónico que se seguiu. Mas também a incrível recuperação do Japão, não só económica (ainda hoje é a quarta economia mundial) como política, tornando-se uma sólida democracia. A cultura japonesa seduz hoje o mundo, das marcas de alta tecnologia à gastronomia, da arquitetura ao mangá e animé.
Mizuki, que combateu na Segunda Guerra Mundial na Papua-Nova Guiné, experiência que conta em Showa, perdeu o braço esquerdo na sequência de um bombardeamento. Até ao final da vida foi um pacifista. A sua tentativa pessoal de perceber o que aconteceu nos anos 1930 e 1940 ajuda também a explicar o ter investigado a vida de Hitler para a criação de uma biografia do líder nazi em mangá.
Sobre ter ou não hoje muitos seguidores fiéis em Portugal, Ana Lopes, cuja editora tem vindo a publicar muita da obra do genial autor japonês, explica que “Mizuki é um longseller. Não conseguimos avaliar se os leitores que compraram um dos seus livros foram os mesmos que adquiriram os seguintes (ou que leram), mas no caso de séries, cremos que sim e registamos interesse por parte dos leitores para conhecerem datas de publicação, por estarem a fazer a coleção, por exemplo”.

A aposta editorial em Portugal na mangá confirma a popularidade do género, que de certa forma resulta do tal fascínio pela cultura japonesa. Diz Ana Lopes: “nota-se isso cada vez mais no espaço que o género ocupa nas prateleiras das livrarias. Há maior interesse, maior catálogo, mais editoras a publicar. Para os leitores infanto-juvenis (8-16 anos) a leitura do fim para o princípio nunca foi uma questão e, a grande maioria dos livros publicados destina-se a esta demografia. É um hábito mais difícil para os adultos, sejam ou não leitores de banda desenhada, esta é uma demografia mais renitente a esta ‘mudança’, mas o sentido da leitura torna-se irrelevante quando conseguimos proporcionar boas histórias aos leitores. É isso que vamos continuar a fazer”.
