O Partido Social Democrata tem vindo a destacar o crescimento do número de trabalhadores com salários líquidos iguais ou superiores a 3.000 euros. Os números são, de facto, impressionantes – mas contam apenas uma parte da história.
O que é verdade?
Nos últimos dez anos, o número de trabalhadores neste escalão disparou: passou de 28,7 mil, em 2016, para 124,8 mil, este ano – um crescimento de 335%, ou seja, mais de quatro vezes mais. Face ao ano passado, a subida foi de 27%, o que também está correto.
O que é exagerado?
Já a afirmação de que, em apenas dois anos, o número destes trabalhadores “quase dobrou” é um exagero. É verdade que houve um aumento expressivo de 75,8%, mas isso não é o mesmo que duplicar. Para ser rigoroso, faltam ainda cerca de 17 mil trabalhadores para se atingir o dobro.
O retrato real do mercado de trabalho português
Apesar deste crescimento, é fundamental olhar para o contexto geral:
- Os 124,8 mil trabalhadores que ganham 3.000 euros ou mais representam apenas 2,7% do total de 4,57 milhões de trabalhadores por conta de outrem.
- Mesmo descontando quem não declarou rendimentos, este grupo não ultrapassa os 3,23%.
Para comparação, a grande maioria dos portugueses está num patamar bem diferente:
- 1,56 milhões de pessoas (34,1%) recebem entre 900 e 1.200 euros líquidos.
- Por cada trabalhador com 3.000 euros ou mais, há outros 13 a ganhar entre 900 e 1.200 euros.
Se juntarmos os escalões dos 900 aos 1.800 euros, chegamos a 2,61 milhões de trabalhadores – o que equivale a 57,1% da população empregada. Nesta conta, há 21 trabalhadores nestes escalões intermédios por cada um que ganha acima de 3.000 euros.
Quem são os que ganham mais?
O estudo da Randstad, citado pelo PSD, revela também que este grupo de maior rendimento é bastante assimétrico:
- 69,2% são homens e apenas 30,8% são mulheres;
- 78,7% trabalham no setor dos serviços;
- As regiões de Lisboa e Norte concentram quase 66% destes trabalhadores.
Conclusão: meias-verdades não bastam
Resumindo: o PSD tem razão quando aponta para a tendência de crescimento e para o aumento anual de 27%. Contudo, a afirmação de que o número “quase duplicou” em dois anos é numericamente imprecisa. Mais grave ainda é a omissão do dado mais relevante: este grupo continua a ser uma minoria residual, representando menos de 3% do total de trabalhadores. Enquanto isso, a esmagadora maioria dos portugueses continua a viver com salários entre os 900 e os 1.200 euros – uma realidade que não pode ser esquecida na hora de fazer contas à recuperação do país.
